Morre aos 95 anos Haroldo Costa, guardião do samba e primeiro ator negro no Theatro Municipal

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Morre aos 95 anos Haroldo Costa, guardião do samba e primeiro ator negro no Theatro Municipal

Haroldo Costa, o icônico ator, jornalista e pesquisador da cultura afro-brasileira, morreu no sábado, 13 de dezembro de 2025, aos 95 anos, no Rio de Janeiro, após semanas de internação por complicações de saúde. Sua morte foi confirmada pela família e por veículos como Poder360, Agência Brasil/EBC e Omelete. Não apenas um nome do teatro e da TV, Costa foi o primeiro ator negro a pisar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro — um marco histórico em 1956, durante a estreia de Orfeu da Conceição, peça que uniu Vinicius de Moraes e Antônio Carlos Jobim, com cenários de Oscar Niemeyer. Sua passagem não foi apenas artística: foi política, intelectual, cultural. E agora, sua ausência deixa um vazio difícil de preencher.

Do teatro ao samba: uma trajetória que desafiou fronteiras

Nascido em 1930, Haroldo Costa começou no Teatro Experimental do Negro, movimento fundado por Abdias do Nascimento para combater o racismo nas artes. Mas foi em Orfeu que ele entrou para a história: um ator negro em um palco que, até então, só havia visto brancos. A cena não era só teatral — era revolucionária. Nos anos 1960, atuou em filmes nacionais e internacionais, mas foi na televisão que sua voz ganhou alcance nacional. Na TV Globo, foi ator em minisséries como Chiquinha Gonzaga (1999) e Subúrbia (2012), mas também diretor e produtor de programas que deram espaço à música brasileira. Não se limitou a interpretar: ajudou a construir o que foi transmitido.

O comentarista que decifrou o Carnaval

Seu nome virou sinônimo de Carnaval. Por mais de quatro décadas, Haroldo Costa foi o rosto e a voz mais confiável dos desfiles da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). Seu comentário não era apenas técnico — era histórico. Ele explicava o samba-enredo como se fosse um poema épico, ligando as letras às memórias da diáspora africana, às lutas sociais, às invenções populares. Foi jurado do Estandarte de Ouro, do Jornal O Globo, e seu livro 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro segue sendo a referência mais citada por estudiosos e escolas de samba. Não era um observador. Era um guardião.

Reconhecimento oficial e legado intelectual

Reconhecimento oficial e legado intelectual

A morte de Haroldo Costa gerou uma onda de luto que ultrapassou os limites do samba. O prefeito Eduardo Paes o chamou de "guardião do samba e do carnaval", destacando seu "amor profundo pelo povo do samba". Já o governador Cláudio Castro o definiu como "mestre" que "ajudou gerações a compreender a grandiosidade dos desfiles". A historiadora Lilia Morbio Schwarcz, doutora em Antropologia pela University of Chicago, afirmou que ele foi "uma figura central na intelectualidade negra brasileira" — uma frase que ecoa como uma verdade incontestável.

O Ministério da Igualdade Racial do Brasil o classificou como "ator e intelectual antirracista". E não é exagero. Em um país onde a representação negra ainda é precária, Costa foi um dos poucos que, com calma, sabedoria e rigor, construiu pontes entre o samba e a academia, entre o morro e o palácio. Ele não pediu espaço: o construiu.

Um legado que não morre com o corpo

Um legado que não morre com o corpo

Ainda não há informações sobre velório ou sepultamento. A família, em luto, pede respeito. Mas o que Haroldo Costa deixou não cabe em um caixão. São os registros de mais de 70 anos de pesquisa. São os jovens que, hoje, citam suas falas nos trabalhos de faculdade. São os sambistas que, antes de desfilar, lembram das suas análises sobre o significado das alas. São os jornalistas que aprenderam, com ele, que o Carnaval não é só folia — é memória, resistência, identidade.

Rubem Confete, outro grande guardião da cultura popular, escreveu nas redes: "Ele foi um griot moderno. Contava histórias que ninguém mais ousava contar, e com a autoridade de quem viveu tudo." E isso é o essencial: Haroldo Costa não apenas falou sobre a cultura afro-brasileira. Ele a viveu. E, ao fazê-lo com dignidade, transformou o que era marginal em sagrado.

Frequently Asked Questions

Por que Haroldo Costa é considerado o primeiro ator negro no Theatro Municipal do Rio de Janeiro?

Antes de 1956, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro não permitia atores negros em papéis principais, mesmo em peças que retratavam personagens negros. Haroldo Costa foi escalado como Orfeu em Orfeu da Conceição, uma produção que desafiou os padrões raciais da época. Sua presença no palco foi um ato político e estético, quebrando um tabu de décadas e abrindo caminho para futuras gerações de artistas negros no teatro brasileiro.

Qual foi a importância do livro "100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro"?

Publicado em 2005, o livro é a primeira obra de referência que sistematizou a história das escolas de samba do Rio, ligando seus desfiles à memória coletiva da população negra. Haroldo Costa usou arquivos, entrevistas e registros de imprensa para mostrar como o samba-enredo é um documento histórico vivo. Hoje, é obrigatório em cursos de comunicação, antropologia e história da cultura popular.

Como Haroldo Costa influenciou a cobertura jornalística do Carnaval?

Antes dele, o Carnaval era visto como mera festa popular, sem profundidade. Costa introduziu uma linguagem crítica, contextualizando os sambas-enredo com a realidade social, a política e a herança africana. Seus comentários na TV e no jornal O Globo elevaram o debate, obrigando a mídia a tratar o Carnaval como fenômeno cultural, e não apenas como espetáculo. Muitos jornalistas atuais reconhecem nele seu mestre.

Qual foi o papel de Haroldo Costa na luta contra o racismo nas artes?

Ele não apenas atuou em papéis que desafiavam estereótipos, mas também criou espaços: produziu programas que valorizavam artistas negros, escreveu sobre a exclusão no teatro e na TV, e foi membro ativo do Teatro Experimental do Negro. Seu trabalho foi sistêmico — não se limitou a ser um exemplo, mas construiu estruturas que permitiram que outros entrassem. Por isso, o Ministério da Igualdade Racial o classificou como intelectual antirracista.

Por que a família ainda não divulgou detalhes do velório?

A família de Haroldo Costa, residente no Rio de Janeiro, está em luto e pede privacidade. Segundo a Agência Brasil/EBC, ainda não há definição sobre cerimônias públicas ou privadas. Isso é comum em casos de figuras tão emblemáticas, onde há pressão da mídia e do público. A expectativa é que, em breve, seja anunciado um ato oficial em homenagem, possivelmente no Theatro Municipal ou na Sambódromo.

Quem são os herdeiros do legado de Haroldo Costa?

Entre os herdeiros estão pesquisadores como a historiadora Lilia Schwarcz, o jornalista Rubem Confete, e jovens mestres-sala e porta-bandeira que citam suas análises em entrevistas. As escolas de samba como Mocidade Independente de Padre Miguel e Portela mantêm arquivos com suas notas de comentários. O legado vive nas aulas de universidades, nos documentários e nos sambas que ainda contam histórias de resistência.

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Haroldo Costa, primeiro ator negro no Theatro Municipal do Rio e comentarista lendário do Carnaval, morreu aos 95 anos. Guardião do samba e intelectual antirracista, deixou um legado imenso na cultura brasileira.

12 Comentários

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    Mariana Moreira

    dezembro 15, 2025 AT 03:29
    Haroldo Costa foi um dos poucos que transformou o Carnaval de folia em história viva. Ele sabia que cada samba-enredo era um documento de resistência, e isso mudou tudo. Ninguém mais falava assim, e ninguém mais vai falar como ele falava. 🙏
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    Gabriel Nunes

    dezembro 15, 2025 AT 22:33
    ah sim claro tudo muito bonitinho mas quem pagou pra ele fazer isso? isso é só propaganda de esquerda pra enganar o povo
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    Alexandre Santos Salvador/Ba

    dezembro 17, 2025 AT 13:24
    vocês não percebem que isso tudo é uma armação? o Theatro Municipal sempre teve artistas negros, só que a mídia escondeu até que alguém inventasse esse mito pra ganhar prêmio. ele não foi o primeiro, só o mais falado. #verdadesoculta
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    Mayri Dias

    dezembro 18, 2025 AT 00:20
    Sua voz nos desfiles era como um hino. Quando ele explicava o samba-enredo, eu sentia a história do meu avô naqueles versos. Ele não era só comentarista - era memória caminhando. E agora? Quem vai contar essas histórias sem que a gente precise decorar?
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    Bruno Rakotozafy

    dezembro 19, 2025 AT 16:18
    cara ele foi demais msm ntm q o carnaval ta mais chato agora mas ele tava sempre la com aquela cara de sábio q parecia q tava falando com deus
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    Luiz André Dos Santo Gomes

    dezembro 21, 2025 AT 04:09
    Você sabe... a gente fala de legado como se fosse um objeto que a gente pode guardar numa prateleira... mas Haroldo não deixou um legado, ele deixou um eco. E esse eco tá nas escolas de samba que ainda perguntam "o que isso quer dizer?" antes de desfilar... e nas universidades onde os alunos não só estudam o samba, mas sentem ele. E isso... isso é mais que memória, é vida que continua respirando. 🌿
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    Dayane Lima

    dezembro 21, 2025 AT 05:58
    e o livro dele ainda é usado na faculdade? tipo mesmo? eu nunca vi isso nos livros da minha biblioteca
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    João Victor Viana Fernandes

    dezembro 21, 2025 AT 12:23
    A morte de Haroldo é um espelho. Ele foi o primeiro a dizer que o samba não é folia, é memória. Mas quem hoje se lembra disso? A cultura popular é consumida como entretenimento, e os guardiões viram memes. Ele construiu pontes. Nós só usamos elas pra tirar selfie e esquecer o que elas ligam.
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    João Pedro Ferreira

    dezembro 22, 2025 AT 22:12
    Acho que o que mais me toca é que ele nunca pediu pra ser herói. Só fez o que sabia que era certo. E isso, no Brasil de hoje, é a revolução mais silenciosa que existe.
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    Rodrigo Eduardo

    dezembro 23, 2025 AT 02:14
    ele era bom msm mas cadê os outros que fizeram o mesmo? só ele que valeu?
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    Mayri Dias

    dezembro 25, 2025 AT 00:49
    Você quer saber de outros? Tem Abdias do Nascimento, tem Lélia Gonzalez, tem Martinho da Vila... mas Haroldo foi um dos poucos que entrou no Theatro Municipal, na TV Globo e no jornal O Globo - e não saiu de lá só como figurante. Ele foi autoridade. E isso não é sorte, é luta.
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    Afonso Pereira

    dezembro 25, 2025 AT 21:56
    É interessante observar a instrumentalização discursiva da figura de Haroldo Costa como um símbolo hegemônico de resistência, descontextualizando as estruturas de poder que, paradoxalmente, o incorporaram como exceção, não como norma. O que vemos aqui é uma cooptação simbólica da ancestralidade negra para fins de legitimidade cultural, sem que haja efetiva redistribuição de recursos. A memória é comercializada, enquanto a realidade permanece estruturalmente excludente. #AntirracismoPerformático

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